Notícias da Saúde em Portugal 793

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Suspensão imediata da comercialização e retirada do mercado: "Boderm Crotamiton Plus Body Lotion"

INFARMED I.P.

Na sequência de uma denúncia, e no âmbito das suas competências de monitorização e fiscalização do mercado de produtos de saúde, o INFARMED, I.P. verificou que o produto “Boderm Crotamiton Plus Body Lotion” foi indevidamente classificado e colocado no mercado como produto cosmético, considerando a finalidade prevista, nomeadamente reivindicando tratamento da escabiose, efeito antipruriginoso e contra a sarna, a que acresce a concentração de permetrina na sua composição, substância com reconhecida ação farmacológica, o modo de utilização recomendado e a forma de apresentação.

Considerando, assim, que o produto em questão contraria o disposto nos requisitos estabelecidos pelo Regulamento (CE) n.º 1223/2009 do Parlamento Europeu e do Conselho, de 30 de novembro de 2009, bem como, pelo Decreto-Lei nº 23/2025, de 19 de março, e ainda o previsto no Regulamento (UE) n.º 655/2013, de 10 de julho, que estabelece critérios comuns para justificação das alegações relativas a produtos cosméticos, o INFARMED, I.P. determina o seguinte relativamente ao produto “Boderm Crotamiton Plus Body Lotion”:

  • As entidades que eventualmente disponham deste produto não o devem disponibilizar ou utilizar. Para obter informações adicionais, devem contactar a empresa Dermworks, Lda.

  • Os consumidores que tenham o referido produto na sua posse devem abster-se de o utilizar.

Inovação no cancro: técnica “sem suturas” junta impressão 3D e cirurgia robótica

DN

Criada pelo urologista David Subirá, a técnica RSD permite remover tumores do rim com precisão milimétrica, preservando a função do órgão e protegendo a saúde cardiovascular dos doentes.

Lisboa consolidou-se no passado fim de semana como o epicentro da inovação na medicina uro-oncológica mundial. Durante a primeira edição do URONEXT, fórum de debate científico de alto nível organizado em parceria pela CUF e pela Clínica Universidad de Navarra, especialistas de referência de países como o Canadá, EUA e Espanha, além de portugueses, assistiram a um momento inédito: a transmissão em direto de uma Nefrectomia Parcial Robótica que utilizou a técnica RSD (Renal Sutureless Device). O procedimento, conduzido pelo cirurgião de origem espanhola David Subirá, coordenador de Urologia do Hospital CUF Tejo e mentor da técnica, demonstrou como é possível tratar o cancro do rim sem recorrer aos tradicionais pontos internos, elevando o padrão de precisão cirúrgica em Portugal e não só.

Após a intervenção, o balanço do especialista foi “muito positivo”. “A cirurgia correu como planeado e conseguimos mostrar a técnica em direto a especialistas de vários países, o que é sempre exigente, mas muito útil para trocar experiências”, afirmou o médico ao DN. O especialista sublinhou que os colegas “mostraram grande interesse nesta abordagem, sobretudo porque reduz a agressão ao rim, sem comprometer a segurança oncológica”.

Durante a emissão por vídeo, o foco internacional recaiu sobre a capacidade de manter a integridade do tecido renal, um dos maiores desafios da cirurgia oncológica moderna.

O molde que substitui o fio

Durante décadas, o padrão para remover um tumor do rim envolvia a realização de suturas profundas para controlar a hemorragia. No entanto, o processo de “coser” o órgão é intrinsecamente traumático.

David Subirá explica que “depois de retirar o tumor, fica um espaço no rim que tradicionalmente é fechado com pontos para controlar o sangramento e permitir cicatrização. Na prática, isto comprime o tecido saudável”. Esta compressão pode levar à isquemia (falta de sangue) e à morte de células funcionais que seriam vitais para o doente.

A nova técnica elimina este trauma mecânico e funcional. “A técnica RSD utiliza um molde hemostático que se ajusta exatamente ao espaço deixado pelo tumor. Ele exerce uma pressão controlada que ajuda a parar o sangramento e permite que o rim cicatrize sem precisar de suturas profundas”, descreve o cirurgião.

O triângulo tecnológico: IA, 3D e robótica

O desenvolvimento desta inovação não foi um evento isolado, mas o culminar de anos de observação clínica. “A ideia surgiu da experiência diária no bloco operatório. Constatámos que as suturas podem danificar o rim e procurámos uma forma de reduzir esse impacto”, descreve o urologista.

O seu papel foi “desenvolver o conceito e trabalhar com engenheiros biomédicos para criar um dispositivo que fosse seguro e aplicável em cirurgia robótica”, unindo a visão médica à precisão da Engenharia de Materiais.

“Depois de retirar o tumor, fica um espaço que tradicionalmente é fechado com pontos. A técnica RSD utiliza um molde hemostático que se ajusta ao espaço deixado pelo tumor”, explica o médico. “Ele exerce uma pressão controlada que ajuda a parar o sangramento.

Hoje, a precisão da intervenção é garantida por um complexo fluxo de trabalho digital que começa muito antes do primeiro corte. “Usamos imagens de TAC para criar modelos 3D detalhados do rim e do tumor. Isto permite perceber exatamente a anatomia de cada doente e planear a cirurgia com precisão”, explica Subirá.

Neste processo, a velocidade é fundamental: “A Inteligência Artificial ajuda a processar essas imagens rapidamente, tornando a criação dos modelos mais eficiente. Na prática, significa que cada molde é personalizado e a cirurgia pode ser feita com maior confiança e segurança”. No bloco operatório, o cirurgião utiliza o sistema robótico para manipular estes moldes com uma delicadeza que as mãos humanas, por si só, não conseguiriam replicar, beneficiando de uma visão tridimensional ampliada e imersiva.

Salvar o rim para proteger o coração

O impacto da técnica RSD extravasa os limites da oncologia e entra no domínio da medicina preventiva sistémica. “O objetivo principal é sempre remover o tumor com segurança. Mas preservar o rim é igualmente importante”, esclarece o médico. Afinal, o rim funciona como o filtro central do corpo humano e a sua falência tem repercussões em cascata em todo o organismo.

Ao evitar que o doente desenvolva insuficiência renal, a técnica RSD protege indiretamente o coração e a circulação, reduzindo a morbilidade a longo prazo e melhorando a qualidade de vida pós-cancro.

A caminho de uma medicina “sem suturas”

Questionado sobre a possibilidade de vir, um dia, a imprimir órgãos completos para eliminar as listas de espera de transplantes, o cirurgião mantém o rigor científico e a cautela necessária: “A bioimpressão de órgãos completos ainda é uma área de investigação e provavelmente precisará de mais tempo até ser aplicada na prática clínica. Criar um órgão totalmente funcional e que se integre no corpo humano é um desafio muito grande.”

David Subirá afirma que tem estado ativamente envolvido na formação de outros profissionais. Já realizou a intervenção com um hospital do Estado e o interesse do SNS é recíproco e crescente: “O interesse por parte de colegas do Serviço Nacional de Saúde é grande”, afirma.

Contudo, o presente já é altamente tecnológico e abre portas a um novo paradigma cirúrgico. “Já estamos a usar a impressão 3D, biomateriais e planeamento digital para personalizar cirurgias. Isso permite reduzir a necessidade de suturas em muitas situações, embora o mais importante continue a ser adaptar a cirurgia ao doente e ao tumor”, diz David Subirá.

A técnica RSD é, assim, o rosto de uma nova era na medicina portuguesa: um fase em que a tecnologia serve a personalização e a precisão de um molde 3D pode ditar a saúde e a qualidade de vida a longo prazo de uma pessoa.

Após 24 anos, está atualizada a rede de referenciação hospitalar em Obstetrícia e Ginecologia

JustNews

Diogo Ayres Campos considera que a imposição da pré-triagem telefónica no acesso à Urgência de Obstetrícia e Ginecologia “foi a medida recente mais importante para fazer face às dificuldades de resposta das urgências obstétricas e ginecológicas, que afetam sobretudo a região de Lisboa e Vale do Tejo”.

Em declarações à JustNews, o diretor do Departamento de Obstetrícia, Ginecologia e Medicina da Reprodução do Hospital de Santa Maria, ULS de Santa Maria, refere que “os atendimentos desnecessários na Urgência desgastam muito as equipas médicas e condicionam um número elevado de clínicos em presença física”.

Recorda ainda que, tendo sido implementada inicialmente na região de Lisboa e Vale do Tejo, a medida está agora a generalizar-se a todo o país. Estima-se que cerca de um terço das situações sejam, assim, encaminhadas para consultas abertas nos CSP e nos hospitais.

Membro da Comissão Nacional da Saúde da Mulher, da Criança e do Adolescente, órgão consultivo criado pela ministra da Saúde em 2024, o médico afirma ter estado a trabalhar na revisão do algoritmo da linha SNS24, “tornando ainda mais discriminativo o acesso à Urgência, depois de numa fase inicial termos sido mais cautelosos”. Esse novo algoritmo entrou agora mesmo em funcionamento, no passado 23 de fevereiro.

Rede de referenciação hospitalar em Obstetrícia e Ginecologia

A atualização da rede de referenciação hospitalar em Obstetrícia e Ginecologia, que não acontecia há 24 anos e que está agora concluída, à espera de publicação, define as situações obstétricas e ginecológicas a serem tratadas em cada um dos três níveis em que os hospitais estão classificados.

“É um aspeto crucial para a organização dos cuidados de saúde hospitalares não-agudos em qualquer país”, refere Diogo Ayres de Campos. “Há certas patologias que são raras e cujo tratamento é complexo e, como tal, necessitam de ser concentradas nalguns hospitais, criando aí a experiência e as condições técnicas necessárias para que se ofereçam as melhores soluções terapêuticas”, sublinha.

O especialista aplaude igualmente a decisão de criar, em regime experimental, a figura dos Centros de Elevado Desempenho, que diz respeito a unidades onde a produtividade e o atingimento de metas nos indicadores de qualidade se traduzem em incentivos financeiros para todos os elementos da equipa.

“Acho que têm potencial para melhorar os cuidados de saúde prestados e promover a fixação de profissionais no SNS, desde que sejam implementadas de uma forma cuidadosa e equilibrada”, afirma.

“Esta medida não implica alterar a atividade clínica programada dos serviços envolvidos, mantendo-se inclusivamente a realização de cesarianas e de partos programados. Desta forma, os Blocos de Partos mantêm-se abertos em dias fixos da semana e espera-se que isso constitua uma motivação para que as equipas se venham a ‘reconstruir’ no futuro.”

Outra decisão que destaca, e que foi tomada com o apoio das ordens dos Médicos e dos Enfermeiros, diz respeito à possibilidade dos enfermeiros especialistas em Saúde Materna e Obstétrica fazerem a vigilância de grávidas de baixo risco nas unidades onde não existe capacidade de resposta dos médicos de Medicina Geral e Familiar.

“É necessário dar uma solução a essas grávidas. Não podemos aceitar que voltem a existir gestações não vigiadas no nosso país, com todos os riscos materno-fetais que isso comporta. A vigilância da gravidez de baixo risco por enfermeiros especialistas, de acordo com as orientações da Direção-Geral da Saúde, é uma solução necessária e que já deu provas de segurança e satisfação em muitos outros países europeus”, sublinha Diogo Ayres de Campos.

Por fim, realça “a necessidade de regularização das condições contratuais dos médicos prestadores de serviços, com uma revisão estratégica cuidadosa e equilibrada, feita de forma a motivar o reingresso no Serviço Nacional de Saúde, mas sem pôr em causa esta solução, que se tornou numa ‘tábua de salvação’ para muitos serviços de Obstetrícia e de Ginecologia”.

“É importante que a Obstetrícia e Ginecologia nacional retome rapidamente os níveis de excelência que já alcançou no passado e que tornou Portugal num modelo organizativo de referência para vários outros países europeus”, conclui.

Impacto dos antibióticos no microbioma intestinal pode durar até oito anos

S+

A toma de antibióticos pode afetar a composição da comunidade bacteriana intestinal, o microbioma intestinal, durante um período que pode ir até aos oito anos consoante os medicamentos utilizados, indica um estudo divulgado na passada quarta-feira.

Embora os antibióticos protejam contra infeções graves, o seu uso excessivo aumenta o risco de algumas doenças, como a diabetes tipo 2 e as infeções gastrointestinais, o estudo conclui que “as alterações no microbioma provocadas por estes medicamentos podem estar na origem destas patologias”.

O impacto destes medicamentos no microbioma a curto prazo é conhecido, mas o efeito a longo prazo tem sido pouco estudado, indica o estudo, liderado por cientistas da Universidade de Uppsala, na Suécia, publicado na revista científica Nature Medicine e citado pela agência noticiosa espanhola EFE.

A equipa de investigadores analisou o microbioma intestinal de 14.979 residentes na Suécia e comparou o dos participantes que tinham tomado diferentes tipos de antibióticos nos últimos oito anos com o dos que não tinham tomado, tendo as análises revelado fortes ligações entre o uso de antibióticos e a composição do microbioma intestinal de cada pessoa, incluindo a diversidade de espécies bacterianas.

"Podemos ver que o uso de antibióticos há quatro a oito anos está ligado à composição atual do microbioma intestinal de uma pessoa. Mesmo um único tratamento com certos tipos de antibióticos deixa vestígios", afirma Gabriel Baldanzi, primeiro autor do estudo e antigo estudante de doutoramento da Universidade de Uppsala, citado pela EFE.

O estudo constatou um maior impacto com a utilização de clindamicina, de fluoroquinolonas e de flucloxacilina, enquanto a penicilina V, o antibiótico para o tratamento de infeções mais prescrito fora dos hospitais na Suécia, foi associada a pequenas alterações e de curta duração no microbioma.

"A forte ligação entre a flucloxacilina de espetro restrito e o microbioma intestinal foi inesperada e gostaríamos de ver esta descoberta confirmada noutros estudos, mas acreditamos que as conclusões do nosso estudo podem ajudar a fundamentar futuras recomendações sobre o uso de antibióticos, especialmente na escolha entre dois antibióticos igualmente eficazes, sendo que um deles tem um impacto menor no microbioma intestinal”, afirmou a investigadora principal Tove Fall, professora de Epidemiologia Molecular na Universidade de Uppsala.

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